Entrevistas

 

foto Leila Maria BeltraminiA doutora em Bioquímica Leila Maria Beltramini não se contenta em apenas fazer ciência. Tão importante quanto é divulgar ao público leigo os avanços que ocorrem a todo momento nos campos da ciência, tecnologia e inovação. Mais do que isso, dedica-se também ao ensino de ciências a professores e alunos dos ensinos fundamental e médio. Beltramini é pesquisadora em Produtividade em Pesquisa do CNPq e Livre Docente pelo Instituto de Física de São Carlos-USP, onde é professora associada (sênior) junto ao grupo de Biofísica Molecular Sérgio Mascarenhas. Atua em duas áreas de pesquisa: Biofísica Molecular e Espectroscopia, com ênfase em estudos sobre Estrutura, Função e interação de Proteínas e Peptídeos com sistemas miméticos de membranas; Educação e Difusão de Ciências, com ênfase na área de Biologia Molecular Estrutural e Biotecnologia. Desde janeiro é professora visitante da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) junto aos campi de Sorocaba e São Carlos. Ela deu a seguinte entrevista à Aba Popularização da Ciência do CNPq

1.               A senhora é doutora em Bioquímica. Como surgiu seu interesse por esta área?

Desde o curso de graduação imaginava seguir ensinando/pesquisando e à medida que cursava diferentes disciplinas me interessava por elas. A primeira foi bioquímica, depois fisiologia, depois imunologia até bioestatística, com toda matemática associada, aguçavam minha curiosidade. No último ano da graduação fui atrás de cursos de Pós Graduação na área de Imunologia, acabei chegando ao Instituto de Biologia na UNICAMP, onde tive contato com pesquisa em imunoquímica, estudando estrutura de imunoglobulinas. Daí para a bioquímica foi um "pulinho". Acabei estagiando no recém instalado (na época, 1975) laboratório de Química de Proteínas, Depto. Bioquímica da FMRP, para aprender técnicas da área e montá-las em Campinas. Bem, acabei entrando depois na PG deste Depto. onde fiz Mestrado, Doutorado, e um Pós Doc na área de Farmacologia Bioquímica.

2.               Além de pesquisadora renomada, a senhora dedica-se à divulgação científica. Os cientistas deveriam se preocupar em divulgar para o público leigo o resultado de suas pesquisas?

O desenvolvimento social nos países onde o trinômio educação/ciência/tecnologia não andam juntos é muito lento, e nosso desenvolvimento prova isso. Nós temos uma enorme dívida social porque fazemos pesquisas financiadas fundamentalmente com recursos públicos. Assim, a sociedade tem o direito de saber os resultados de nossos trabalhos, e esta informação tem que ser dada pelos cientistas, que podem ser auxiliados pelos jornalistas, pois a linguagem precisa ser adequada ao público que se destina.

3.               Nesta semana comemora-se o Dia Internacional da Mulher. Pode-se dizer que, hoje, a mulher está plenamente engajada na área científica?

Sim e não: hoje as mulheres estão plenamente engajadas em quase todas as áreas das ciências, porém nas exatas ainda há predomínio masculino, sem falar nos cargos de condução das políticas científicas onde somos minoria absoluta.

4.               Até pouco tempo era patente a discriminação contra a mulher no meio científico. "Ciência é coisa de homem". Essa situação ainda perdura?

Atualmente creio que esta visão esta um pouco mais minimizada. Mas se você pede para uma criança ou jovem desenhar um cientista a figura que aparece em mais de 90% dos casos é masculina, assim como na figura de professor predomina a feminina.

5.               São vários os cientistas que se dedicam à divulgação científica, entre eles Roberto Lent, Antonio Carlos Pavão, Leopoldo de Méis, Vanderlei Bagnato e outros. Entre as mulheres, me vem à mente o seu nome e o de Suzana Herculano. Há muitas outras mulheres-cientistas que realizam esse tipo de atividade? Ou esse é um trabalho onde o gênero masculino é predominante?

Tenho que concordar com você e acrescento nomes que sempre devem ser lembrados: o professor José Reis, que pode ser considerado pioneiro nesta área em nosso país, um cientista mais recente, o prof. Ildeu de Castro que "revigorou" a Divulgação Científica (DC)  no Brasil. A Suzana vem à sua mente porque ela fez o cominho inverso: foi contratada na universidade (UFRJ) para fazer DC, depois engajou-se na pesquisa.

6.               Como e quando surgiu seu interesse pela divulgação científica?

Tenho que confessar que fomos "induzidos" a trabalhar com educação científica, porém sempre gostei de me envolver com organização de disciplinas para cursos de graduação. Em 1998-1999, com o edital da FAPESP dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão Científica (CEPID), os projetos eram um tripé que tinham que contemplar as três vertentes. Naquela época elaboramos a parte de Educação e DC de um dos CEPIDs que foram apoiados pela FAPESP. Elaboramos e executamos a proposta muito bem e sempre recebeu pareceres destacados nas avaliações de comitês nacionais e internacionais. Desde então temos atuado fortemente nesta área, difundindo não só nosso trabalho, mas de outros grupos que se dedicam à DC no Brasil.

7.               Atualmente, quais são as principais atividades de divulgação científica que realiza?

Eu digo que atuamos em Educação e Difusão Científica, pois desenvolvemos materiais inovadores para o ensino das ciências da natureza. Vão desde peças para montagem de estrutura de DNA, Aminoácidos e Proteínas, jogos impressos e virtuais, e nos últimos três anos jogos e aplicativos multimídias, para web e dispositivos móveis, sob diferentes temáticas tem sido nosso foco. Outra frente é ministrar cursos de educação continuada para professores do ensino fundamental e médio, em parceria com a Secretaria Estadual de Educação de São Paulo e outros estados do país. Nestes últimos, fazemos parcerias com professores de Universidades, que fazem parte de nossos projetos. Eles recebem treinamento e passam a realizar atividades semelhantes em seus estados. Ainda mantemos um Espaço Interativo de Ciências (EIC) instalado no centro da cidade de São Carlos, onde estudantes e professores podem visitar exposições e participar de oficinas e de um Clube de Ciências dedicado a alunos das escolas públicas da cidade de São Carlos. Todo material produzido e atividades realizadas estão disponíveis para download em nosso portal http://eic.ifsc.usp.br.

8.               Qual a importância de se engajar na atividade de divulgação científica?

O interessante é que para muitos de nossos pares o cientista que se engaja em DC deixa a "hard Science" (que eu chamo de pesquisa de bancada) de lado. Assim, a importância em se engajar em DC tem um cunho particular e pessoal, somente recentemente é que encontramos "abas" no CV Lattes para que possamos registrar tais atividades. Esta atitude do CNPq veio valorizar e incentivar a realização de tipo de atividade por nossos colegas cientistas.

9.               A senhora participa de um projeto desenvolvido no Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP) onde são utilizados recursos interativos para estimular o aprendizado e o interesse de alunos do ensino fundamental e médio. Como isso é feito?

Piaget e Vigostik demonstraram cientificamente que a experiência lúdica é insubstituível como método de aprendizagem, além de influir no ensino e formação do cidadão como um todo. Em resumo, procuramos despertar a curiosidade e orientar o estudante para que eles mesmos busquem a resolução dos desafios propostos através do método científico. Com a produção dos materiais procuramos dar ferramentas para os professores trabalharem diferentes temáticas em salas de aulas. Entendemos que a escola, através dos professores do ensino básico, podem incentivar o interesse e a curiosidade dos jovens pelas ciências. Assim investir e incentivar o professor, dando especial atenção aos cursos de formação de professores e aos de educação continuada, é também um de nossos alvos principais. Vemos a Universidade não só como formadora do professor, mas como parceira constante em sua educação continuada. Já no EIC os estudantes podem interagir com diferentes aspectos das ciências da natureza e perceber que os fenômenos não são específicos de uma única área, mas dependem do conhecimento de diferentes disciplinas. A interdisciplinaridade faz parte do cotidiano em nossos clubes de ciências.

10.          Falar de proteínas recombinantes, moléculas de RNA e DNA, aminoácidos ou doenças negligenciadas para alunos do ensino fundamental e médio requer uma aula especial. Quais os recursos didáticos utilizados?

Utilizamos experimentos onde os estudantes é que "colocam a mão na massa" e fazem investigação. Depois vem o desafio de entender como é a estruturas daquelas moléculas com as quais eles trabalharam no laboratório. Para isso são utilizados nossos kits "lego like", além de aplicativos e jogos interativos sobre células, síntese de proteínas, algumas doenças negligenciadas. Nos cursos e oficinas ministrados para os professores mostramos a importância e os incentivamos a praticarem o método científico em suas aulas com os materiais que desenvolvemos para auxiliá-los.

11.          No centro de São Carlos, foi montado o Espaço Interativo de Ciências (EIC), em um imóvel adquirido pela USP. Como funciona esse espaço?

No EIC temos exposições temáticas/lúdicas sobre proteínas recombinantes, biotecnologia, doenças negligenciadas, prospecção de novos medicamentos, além de professores e estudantes poderem agendar visitas e participar de oficinas e cursos. Neste local funciona também o Clube de Ciências, destinados a alunos dos últimos anos do ensino fundamental e ensino médio. Alunos de licenciatura do campus USP São Carlos também têm oportunidade de vivenciarem suas práticas pedagógicas, uma vez que atuam como tutores tanto nos Clubes de Ciências, como no atendimento ao público durante as visitas. No Clube os estudantes interessados têm a oportunidade de vivenciar a prática da experiência científica, acompanhando experimentos como a criação de uma colônia de bactérias e a observação de micro-organismos no microscópio, entre outras atividades. Eles também têm a oportunidade de participar de viagens didáticas para espaços educativos como o Catavento, o Instituto Butantan, e a Estação Ciência, em São Paulo. No final do ano, eles apresentam um trabalho em um workshop e o melhor trabalho é premiado.

12.          Há muitas críticas em relação ao despreparo dos professores em ensinar ciências. A sua equipe realiza alguma atividade para mudar essa realidade?

Sim, como enfatizado anteriormente, um de nossos principais alvos são os cursos de atualização para professores em parceria com Secretarias Estaduais de Educação.

13.          Quais os principais problemas que o pesquisador brasileiro enfrenta quando faz divulgação científica?

A falta de reconhecimento pela maioria de seus pares no trabalho realizado. Outro aspecto são poucos os recursos financeiros destinados a este tipo de atividade, particularmente em algumas FAPs Estaduais.

14.          Quais ações precisariam ser desencadeadas para acelerar a prática de divulgação científica entre os pesquisadores?

Valorização das atividades pelos pares; envolver os alunos de Pós Graduação neste tipo de atividade; inserir como atividade dos Pós Graduandos pelo menos uma ação de DC ligada à sua temática de pesquisa; aumentar os recursos financeiros para a realização de DC em todos os cantos do país. Deveria ter um centro de ciências em cada micro região em todos os estados do país, se possível em cada município.

15.          O projeto desenvolvido por vocês tem apoio financeiro de órgãos como CNPq, Capes, Fapesp?

Sim, o CNPq tem um Comitê Assessor (CA-DC) e dezenas de editais são abertos e julgados durante o ano, apesar dos recursos serem ainda escassos. A FAPESP contempla bem esta área nos projetos CEPIDs, mas deveria destinar recursos específicos em outras modalidades de projetos, de modo que o coordenador se comprometesse com a DC na temática dos mesmos. A CAPES vem incentivando a aproximação da Universidade com o ensino básico através de inúmeros editais anuais.

17.          O que é mais gratificante: fazer ciência ou divulgação científica?

No meu caso os dois lados são gratificantes, inclusive porque também fazemos ciência na DC. Formar jovens cientistas e vê-los "alcançarem seus voos" é gratificante. Já a educação científica para nossa população, no tocante à formação do cidadão comum, tem o poder de instruí-lo e torná-lo um membro mais crítico e consciente em nossa sociedade.

Equipe Popularização da Ciência


Caricatura de Roberto LentAutor de uma vasta produção acadêmica, Roberto Lent também encontra tempo para se dedicar à divulgação científica, tanto ao público adulto quanto ao infantil. Formou-se Médico na Faculdade de Medicina da UFRJ em 1972, e graduou-se Mestre em Neurobiologia e Doutor em Ciências no Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da UFRJ em 1973 e 1978, respectivamente. Completou sua formação científica realizando estágio de Pós-doutoramento em Neuroplasticidade no Massachusetts Institute of Technology, entre 1979 e 1982. Após os anos de formação, dirigiu sua carreira profissional para três domínios diferentes: a pesquisa científica em Neurobiologia; a nucleação de grupos científicos de alta produtividade; e a divulgação científica. No domínio da divulgação científica, Roberto Lent fundou, junto com outros três colegas, a revista Ciência Hoje da SBPC, da qual foi Editor e autor durante muitos anos. A revista se transformou em um Instituto   com múltiplos veículos, de cujo Conselho é Presidente. O Instituto Ciência Hoje atualmente possui uma revista impressa e on-line para adultos, uma revista impressa e on-line para crianças, e publicauma série de livros escolares para-didáticos, além de outros projetos importantes. Lent também manteve a coluna Bilhões de neurônios na CH On-line entre abril de 2006 e dezembro de 2010publicada recentemente no livro Sobre Neurônios, cérebros e pessoas,lançado em 2011 pela Editora Atheneu. Lent deu a seguinte entrevista à aba Popularização da Ciência:

Quando teve início o seu interesse pela divulgação científica?

Comecei a me interessar por essa atividade logo que me formei em medicina (1972), e alguns anos depois fui escolhido secretário-regional da SBPC para o Rio de Janeiro, quando comecei a articular a possibilidade de criação de uma revista de divulgação científica da sociedade. Fizemos na época uma pequena série de conferências para o grande público, na Academia Brasileira de Ciências. Eram tempos de ditadura, e as pessoas tinham medo de falar e de se reunir. Funcionou com pequeno público, foi um começo.

Além das muitas atividades de divulgação científica, o senhor é um pesquisador atuante e tem uma vasta produção científica. Como o senhor consegue conciliar tantas atividades ao mesmo tempo?

Bem, é uma questão de organização do tempo, e a prática do trabalho em equipe. e além disso, uma atividade fertiliza a outra. Minha atuação em divulgação científica produziu um livro chamado "Cem bilhões de neurônios", número que não tinha sustentação científica embora fosse propalado em artigos e livros. Isso nos levou ¿ Suzana Herculano-Houzel e eu ¿ a inventar um novo método de contagem de neurônios no cérebro, e a descobrir que o cérebro humano na verdade tem uns 15% menos que os tais cem bilhões. O título do meu livro passou então a ter um ponto de interrogação. É um exemplo interessante da divulgação científica provocando a proposição de um projeto de pesquisa.

O senhor escreveu uma série de livros infantis chamada "As aventuras de um neurônio lembrador". Como e porque surgiu essa idéia?

A ideia surgiu de uma conferência que dei em uma região muito carente da periferia de São Paulo, em uma das reuniões da SBPC, para crianças de 8-9 anos de uma escola pública. Falei sobre células nervosas o tempo todo, e ao final uma das crianças me perguntou: "tio, existem células calmas?" Aí me dei conta que não tinha sido claro na minha exposição, e que precisava aprender a falar/escrever para crianças. A ideia foi amadurecendo, até que se tornou realidade.

Depois, esses livros foram adaptados para o teatro e quadrinhos. Como se deu esse processo?

A adaptação para quadrinhos foi imediata, por intermédio do ilustrador dos livros ¿ Flavio de Almeida, um craque da ilustração que fez parte da equipe da antiga revista Mad. A adaptação para o teatro ocorreu após eu ser procurado por um grupo de teatro infantil ¿ grupo Tibicuera ¿ que se propôs a roteirizar o livro e encenar a peça. O roteiro foi feito pela Claudia Valli, uma excelente roteirista da Rede Globo, com a minha colaboração. E a peça foi encenada algumas vezes no Rio de Janeiro, e levada a cidades do interior.

É mais importante divulgar ciências para crianças do que para adultos?

Não. Acho que os dois focos são importantes e têm que coexistir. As estratégias de divulgação, é claro, são diferentes. E os objetivos também: no caso das crianças, predomina o objetivo educacional; no caso dos adultos, a informação que garante o exercício da cidadania.

A maioria dos cientistas tem dificuldades de levar os resultados de suas pesquisas para o público leigo. Por que isso ocorre?

Falar para o público leigo é muito diferente da linguagem técnica. Há que aprender e treinar. Para um neurocientista, eu posso dizer "células de purkinje", e terei sido claro o suficiente. Para um adulto leigo eu diria "células motoras de uma região do cérebro chamada cerebelo". E para as crianças eu diria "bolinhas cheias de cabelinhos que moram dentro da nossa cabeça"... Nem sempre os cientistas se conformam com essa liberdade metafórica que temos que ter ao usar a linguagem de divulgação científica. Atualmente, há estímulos das agências financiadoras para isso, o que tem aumentado a participação dos cientistas nessa atividade, principalmente dos mais jovens.

O senhor tem uma estratégia própria para fazer divulgação científica?

Não, uso a minha intuição...

Que conselhos o senhor daria ao cientista que quisesse fazer divulgação científica?

Começar!

O senhor acha que o jornalista brasileiro está preparado para fazer divulgação científica?

Sim, já há excelentes jornalistas científicos em alguns dos principais jornais do país, e há sensibilidade das escolas de comunicação para desenvolver essa área. Talvez seja necessário mais, mas é uma questão de tempo e mercado.

Os museus de ciências são uma iniciativa eficaz para incentivar nas crianças o interesse pela pesquisa?

Muitíssimo. Os museus de ciências permitem que a criança tenha uma experiência interativa com a ciência, e desenvolvam o gosto pela experimentação. É muito diferente da divulgação científica que utiliza meios discursivos (livros, revistas). Na verdade, todos os meios de divulgar ciência são válidos e complementares. Já houve até mesmo divulgação científica em um desfile de escola de samba, no Rio de Janeiro, quando a Unidos da Tijuca desfilou com uma grande construção humana que simbolizava o DNA.

Quais são os principais desafios da divulgação científica hoje no Brasil?

Crescer, capilarizar a todos os segmentos sociais, entrar na escola pública, e manter sempre a riquíssima colaboração entre cientistas e comunicadores.

O senhor foi um dos incentivadores da criação da revista Ciência Hoje, da SBPC, em 1982. Como surgiu essa idéia?

Essa é uma história longa, que surgiu nos anos 1975-6, quando eu era secretário-regional da SBPC no Rio de Janeiro. Formamos um grupo de cientistas que elaborou um projeto de revista. O projeto foi levado adiante pelo secretário regional seguinte, Ennio Candotti, com apoio do CNPq. Tivemos que vencer até mesmo uma certa resistência da SBPC, que de vez em quando reaparece até hoje... Movia-nos o desejo de criar um instrumento de divulgação científica que estabelecesse uma ponte entre a ciência brasileira e o público. Na época só havia revistas traduzidas...

Depois foram criadas Ciência Hoje on Line, Ciência Hoje das Crianças e o Jornal da Ciência. Essas publicações foram bem recebidas pelo público?

Não só foram bem recebidas pelo público como fomentaram a criação de outros veículos produzidos por empresas privadas de comunicação. A Ciência Hoje das Crianças, atualmente, é lida por crianças que participam do programa Ciência Hoje de apoio à Educação, junto com várias prefeituras municipais de diversos estados. Esse é um projeto de grande impacto, que inclui também a formação de professores.

Havia alguma iniciativa de divulgação científica antes da Ciência Hoje?

Sim. o principal pioneiro foi José Reis, um dos fundadores da SBPC. Mas mesmo antes dele, Roquete Pinto fazia divulgação científica pelo rádio, e havia algumas iniciativas esparsas na imprensa em diferentes períodos. Mas nada massivo como hoje conseguimos no país.

Qual o veículo ideal para se fazer divulgação científica no Brasil?

Não acho que haja veículo ideal. Todos são válidos, pois atingem públicos distintos, têm possibilidades diferentes, e o conjunto se soma no esforço de aproximar a ciência do cidadão e da criança.

O senhor disse em artigo no Jornal da Ciência que é hora das instituições científicas falarem mais freqüentemente com a sociedade, especialmente as que representam a comunidade científica como é o caso da Academia. O que o senhor quis dizer com isso?

Quis dizer que a divulgação científica é uma obrigação social da comunidade científica ¿ a de prestar contas à sociedade das conquistas que realiza com o dinheiro público. Além disso, trata-se de prover informação qualificada aos cidadãos sobre temas que envolvem aspectos científicos, para que eles possam tomar decisões. Temas como o uso de animais em pesquisa, o aborto, o uso terapêutico de células-tronco, a energia nuclear, a proteção do meio ambiente, e muitos outros (praticamente todos!) podem ser objeto da investigação científica, e as conclusões em tese podem ajudar ao processo de tomada de decisões dos poderes da república.

Equipe Popularização da Ciência